As coisas mais importantes da vida — aquelas que são verdadeiramente essenciais, sem as quais não seria possível existir — possuem características inusitadas: algumas são invisíveis, sem cor, sem cheiro, sem sabor… Algumas não se podem tocar e outras nem se podem ouvir.

Elementos como a água, substância translúcida que compõe quase 80% do nosso cérebro, é o motor silencioso da nossa mente. Bastam dois por cento de sua ausência para que o pensamento vacile e a razão definhe. Ela não tem cor, sabor ou aroma. Talvez por isso muitos não lhe dão a devida atenção. Muitos, apesar de precisarem dela para cada reação química que os mantém de pé, esquecem-se de ingeri-la a cada instante, como se a fonte dependesse do sedento, e não o contrário.

O que dizer do oxigênio, o combustível invisível do qual consumimos mais de quinhentos litros diários, sem o qual nossas células entram em colapso em meros quatro minutos? Elemento básico da nossa existência, ele não tem cor, cheiro ou sabor; nossos olhos não o enxergam e nossas mãos não o podem tocar. Embora o nosso cérebro dependa desesperadamente desse sopro contínuo para continuar gerando consciência, o oxigênio não tem o nosso zelo. Pelo contrário, por vezes contribuímos para a sua escassez, poluindo o ar e devastando as nossas florestas.

Mais misteriosa ainda é a eletricidade sutil que nos anima. Há uma torrente de faíscas invisíveis correndo pelo nosso sistema nervoso a quatrocentos quilômetros por hora. Cada batida cardíaca, cada sinapse, cada lampejo de amor ou poesia no Espaço Literal nasce de um campo eletromagnético invisível gerado pelo coração. Ninguém vê a corrente que nos move, ninguém toca no magnetismo que nos faz sentir, mas se esse fluxo intangível cessar por um único milissegundo, a máquina humana desaba inerte.

Outro exemplo impressionante são os nutrientes que nos sustentam. Ocultos nos alimentos, microscópicos e intocáveis, eles frequentemente não revelam seu aroma ou sabor de forma óbvia. Para nós, contudo, o que importa é a estética do prato: a aparência, o paladar imediato. Importa mais a casca do que a substância.

E por que não incluir nesta reflexão a essência elementar que, independente da vontade humana, nos sustenta? Deus. Assim como as outras essencialidades aqui citadas — a água pura, o ar intangível, a energia que corre nos nervos —, não O podemos ver, tocar e, às vezes, nem ouvir. Para muitos, não há “sabor” em aceitá-lo como vital; dispensam-No de suas vidas e não compreendem por que caminham miseravelmente moribundos, ainda que pareçam gozar de plena saúde.

Somos cascas porque valorizamos apenas a casca! A essência perdeu o valor: se o homem for belo, será canonizado; se for feio, será hostilizado. Se for rico, bem-vestido e perfumado, terá toda a nossa atenção e bajulação; mas se for pobre, vestir trapos e exalar o odor da miséria, será excomungado, destinado ao descaso e à injustiça. Criou-se a ilusão de que não tem essência quem não tem cor, status, cheiro ou brilho.

Desprezamos o essencial porque nos tornamos friamente materialistas. Ditamos regras absurdas: “Não posso acreditar em um Deus que meus olhos não veem; não vou confiar em quem não tem status social, roupas de grife ou um perfume caro para exalar”. Desprezamos diariamente aquilo que nos mantém vivos; rejeitamos veementemente Aquele que nos soprou a vida e que a sustenta a cada respiro.

Mas o que é essencial não fenece. Deus será sempre Deus, e Sua existência jamais precisará ser provada para que se torne real. Até porque, como Essência do Todo, Ele sempre existirá. Nós, porém, ao desprezarmos essa essência invisível que nos irriga, nos oxigena e nos incendeia por dentro, logo, logo, deixaremos de existir.

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