
SEXTOU!
O ar-condicionado soprava continuamente, fazendo circular pelo setor o cheiro da limpeza recente. Sobre as mesas, computadores, garrafas d’água e objetos pessoais ocupavam seus lugares habituais. Depois de colocarem o papo em dia, sem dispensar uma boa fofoca de início de semana, os colegas, agora concentrados, conversavam apenas pelo som ritmado das teclas. Tudo estava exatamente como costumava estar nas manhãs de segunda-feira.
Mantinha os olhos fixos na tela enquanto os dedos saltitavam sobre as teclas. Redigia um documento quando duas vozes interromperam aquele ritmo:
— Hoje ainda é segunda-feira. Parece que o tempo não passa!
— Ô semana que não termina! Já quero gritar: “Sextou!”
Parei de digitar. A água da garrafa, gelada quando cheguei, já estava em temperatura ambiente. Toquei a superfície seca: do suor que antes escorria pela garrafa, o tempo havia bebido a última gota.
Se o tempo não passava, quando a água perdera o frio?
Peguei o lápis e escrevi no bloco os sete dias da semana. Risquei segunda, terça, quarta e quinta. Depois me lembrei da inquietação que costuma invadir o domingo à tarde. Dividi o domingo ao meio e risquei uma das metades. Restaram apenas dois dias e meio
Observei o que sobrara no papel — sexta, sábado e metade do domingo. Era somente a isso que chamávamos de viver? Se a sexta-feira chegasse imediatamente todas as vezes que a invocássemos, quanto de nossa vida ainda restaria?
Ergui os olhos do bloco. Na janela ao lado, meu reflexo devolveu-me outra espécie de calendário. Já na casa dos quarenta, a escassez quase total dos cabelos — que nem tiveram tempo de embranquecer — revelava que o tempo não passava apenas diante de mim. Passava por mim.
O tempo nunca passa sozinho.
Enquanto eu envelhecia, meus filhos cresciam. Houve um tempo em que eu chegava cansado do trabalho e eles me esperavam com toda a energia que já me faltava, querendo brincar. Muitas vezes desejei que aquela fase passasse depressa. Passou. Hoje, sinto falta até daquele cansaço.
Lembrei-me também dos amigos com quem me cruzava diariamente nos corredores. Durante anos, nossos encontros pelos corredores foram tão habituais quanto as mesas, os documentos e o som dos teclados. Hoje, alguns só reaparecem como nomes na agenda do celular ou em mensagens antigas de grupos quase sempre silenciados. Outros já morreram e permanecem nas lembranças de um tempo em que bastava atravessar o corredor para encontrá-los.
Olhei para o celular ao lado do bloco. Alguns daqueles amigos ainda poderiam atender se eu ligasse. Mas havia uma voz que ligação alguma poderia me devolver: a de minha mãe.
Ainda me lembro nitidamente de sua voz do outro lado da linha:
— Oi, meu filho!
Eu teria trocado a sexta-feira mais festejada por uma segunda-feira qualquer em que pudesse ouvi-la outra vez.
O piscar do cursor no editor de texto trouxe-me de volta ao presente. Olhei ao redor. Um colega conversava enquanto digitava; outro tentava resolver um problema ao telefone. Entre vozes e teclas, estavam todos ali.
Voltei ao bloco. Peguei a borracha no porta-trecos e apaguei os riscos sobre a segunda, a terça, a quarta, a quinta e metade do domingo. No papel, a semana voltou a ter sete dias.
O grito de “Sextou!” continuava bem-vindo. Eu só não precisava mais riscar os outros dias enquanto esperava por ele.
Olhei para a data no canto da tela. Ainda era segunda-feira.
Ainda bem.
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Por Nio Passinho
